Cap. 19 (pov. Carolina)
Não pude deixar de ficar irada pela falta de atenção daquela
atendente, eu havia passado pelo menos dois dias sem comer até agora, não podia
comer, pois comecei a perceber que depois que eu fiquei com Harry me deixei
ficar desleixada, comi mais do que o normal e então parei de uma só vez. Era
insuportável a memória de meus colegas de classes me rechaçando por estar acima
do peso quando mudei de ano, lembrei que desde aquela época me foquei em
parecer a mais bela das garotas e a mais forte, comecei uma dieta louca, não
comia por dias e quando sentia que iria desmaiar comia um pedaço de fruta, nada
mais. Aquilo quase me matou, mas no fim das contas com exercícios físicos eu
consegui ter o corpo que desejava, então não parei mais, sempre diminuía alguma
coisa, ou não comia algo, era assustador para mim pensar que eu poderia voltar
a engordar.
Me senti um pouco fraca enquanto discutia com o gerente e o
pessoal do hotel, mas por um momento senti minhas pernas fraquejarem e meu
corpo quase sucumbir ao chão, tomei uma longa respiração e decidi que era
melhor não brigar, liguei para um antigo amigo de meu pai, pedi para que ele me
arrumasse um de seus quartos em seu hotel de luxo, fiquei aguardando sua
resposta e por fim consegui. Eu adorava pensar que poderia ter um dia de
descanso, longe de todos os empregados da empresa e de toda a mídia, porém eu
só poderia escapar por alguns dias, eu ao tinha contado aos rapazes, mas não
poderia participar de toda a turnê, nem o começo dela, a carreira de outros
estava decolando e eu devia estar presente em minha empresa.
Notei que enquanto acertava as coisas para que eu fosse para
o hotel do amigo de papai, Harry ficou um pouco cabisbaixo, alias, ele esteve
triste por um longo tempo, desde que ficamos eu não o vi fazendo gracinhas e
nem me insultando. Ele devia estar com a galinha da Alex ou com qualquer uma
das dançarinas. Dei graças por todos subirem logo para seus aposentos, não estava
me sentindo bem, a fome me bateu em cheio, mas eu a ignorei. Meu táxi chegou
pouco tempo depois de todos esvaziarem o hall de entrada do hotel. Caminhei até
ele e quando todas as minha bagagens estavam devidamente guardas no porta malas
dei o endereço ao motorista, no caminho eu refletia se o lugar parecia o mesmo,
fechado, excluído do mundo, com um lindo lago em sua frente, o prédio todo novo
e visionário, papai sempre me levava para lá quando mamãe queria um espaço, ela
nunca gostou muito da pressão do trabalho que a empresa da família exigia, mas
ela aguentava até onde dava, já papai tentava relaxar me levando para aquele
paraíso escondido, com banheiras de hidromassagem enormes que cada quarto
tinha, as enormes camas que pareciam o céu e também as obras de arte que o Sr.
Claude guardava com orgulho em seu hall de entrada. Eu adorava Sr, Claude,
porém fazia tanto tempo que eu não o via, pelo menos dois anos, era doloroso
vê-lo, sempre lembrava de nossas partidas de poker, ele, papai e eu.
Fui tirada de meus pensamentos quando o táxi parou em frente
ao portão que dava acesso ao lugar, sabia que era restrito a qualquer carro,
então desci, peguei minhas malas e paguei o táxi, apertei o interfone e esperei
para ouvir a voz alegre de Claude sair pelo pequeno aparelho, contei á ele quem
eu era e logo os portões se abriram, dois rapazes uniformizados me ajudaram
colocando as minhas coisas em um carrinho de golfe, eu me sentei em outro
carrinho, um rapaz se sentou ao meu lado, encarou minhas pernas e sorriu envergonhado
quando percebeu que estava muito na cara, ele dirigiu até porta do hotel, onde
Sr. Claude me esperava. Ele era como me lembrava, baixo, branco, cabelos
grisalhos, um corpo magro e esguio, um sorriso genial e um porte francês. Desci
do carrinho e fui ao seu encontro, Claude correu até meu encontro e me abraçou
fortemente me tomando de surpresa.
_Você está tão crescida. – ele murmurou sem conter a emoção
em sua voz. _Parece cada dia mais com sua mãe.
_Obrigada Claude. – falei devolvendo o abraço. _Mas chega de
sentimentalismo. – sussurrei conspiratória para ele que me soltou do abraço,
engoli a vontade de chorar quando ele encarou meus olhos e disse.
_Mas o comportamento é igual ao do seu pai.
Nós conversamos por um tempo no hall do hotel, ele me contou
que seu filho havia voltado do intercambio que fizera no Brasil, eu me lembrava
vagamente de Peter, magrelo como o pai, porém alto, pálido, com olhos grandes e
verdes, ele era um pouco estranho, pois ele era muito inteligente. Bem... Eu
também sou um tipo de prodígio, mas tentava não demonstrar tanto minha
inteligência, diferente de Peter que algumas vezes me desafiava e me deixava
enfurecida por não conseguir responder algumas de suas perguntas. Claude me
contou que Peter havia conhecido uma garota no Brasil, só que pela ironia do
destino ele teve que voltar para Londres antes do previsto, Sr. Claude me
avisou que no momento Peter estava correndo pelos campos do hotel e que logo
voltaria, achei estranho, porque Peter tinha um problema com a natureza quando
mais jovem, suspirei aliviada, não queria ver aquele pentelho idiota, ele
sempre conseguia me ofender por minhas espinhas ou por meu peso. Aposto que ele
não me reconheceria agora.
Claude me deixou em frente á minha suíte, o quarto era
enorme e tinha passado por algumas reformas, pois agora tinham dois lustres de
cristal, as cama parecia maior e pude notar que as janelas eram inteligentes,
deixei elas escuras, queria privacidade, fechei a porta atrás de mim e tirei
minha roupa, jogando pelo quarto minhas peças, as malas estavam todas perto de
uma mesa redonda de vidro que tinha um conjunto de três cadeiras de acrílico,
corri para o banheiro nua e liguei a água da banheira, joguei alguns sais de
banho e quando ela estava cheia me deitei saboreando a água relaxante, o cheiro
de jasmim e a plenitude das bolhas de sabão.
Sai do banho quando as bolhas acabaram me dando por vencida,
caminhei lentamente até minha mala principal e de lá tirei uma roupa http://www.shopsimples.com/image/cache/data/VESTUARIO-FEMININO/BABYDOLL-FLORAL-AZUL/babydoll-renda-azul-detalhes-florais-1-600x600.jpg
e um secador de cabelo. Passei meus cremes de pele, sequei meus cabelos e me
vesti, o hotel estava bem quente, só me importei em colocar uma sandália baixa
para confortar meus pés exaustos, passei um pouco de maquiagem para cobrir meu
cansaço e me deitei na cama, meu estomago protestou pela fome, tentei
ignorá-lo, porém não pude conter minha fome aguda de quase três dias sem comer.
Eu poderia pegar o telefone ao meu lado e pedir para o cheff me preparar algo,
porém a imagem de papai e eu descendo até a cozinha em busca de comida me
deixou animada o bastante para saltar da cama, correr até a porta e abri-la com
toda a força, mas quando me coloquei para fora do quarto algo bateu em mim com
toda a força me lançando para o chão, senti o impacto forte em meu ombro e gemi
com a dor, parecia que um trem tinha me atropelado, por um momento me torne
ciente de mãos fortes me puxando do chão para um peito musculoso que parecia
ter sido feito de pedra.
_Meu Deus moça, me desculpe mesmo, não pensava que alguém
estaria prestes a sair do quarto. – uma voz grossa soou e eu fixei meu olhar no
homem que me segurava. Meu Deus! Que homem lindo, forte, alto, branco, com
olhos verdes... Peter?
_Peter... – sussurrei fracamente, eu estava sem comer á dias
e minha adrenalina havia sido drenada, não tinha forças para falar.
_Como sabe meu nome? – ele perguntou tentando me firmar em
meus próprios pés, mas a atitude foi falha. _Esquece... Você está fraca demais,
até parece que não come...
_Á dias. – sussurrei completando sua fala.
_Vamos arrumar alguma coisa para você comer. – Peter falou
convicto me ajudando a andar devagar até o elevador, seus braços eram firmes á
minha volta, ele tinha um cheiro divino de banho tomado e estava vestido com
calça jeans e camisa preta por fora da calça, com seus tênis vans cinza.
_Não se lembra de mim? – perguntei quando enfim ele me
sentou na bancada da cozinha, as pessoas trabalhavam á todo vapor lá dentro,
mas resolveram ignorar nossa presença, Peter me deu um prato cheio de macarrão
o recusei. _Tem muito carboidrato ai, não posso comer uma salada? – pedi e ele
negou com a cabeça, bufei tomando o prato de sua mão.
_Pode parecer estranho... Mas eu não consigo me lembrar de
você, fiquei fora por nove anos, só lembro do meu pai. – ele brincou, comi uma
grafada de macarrona, meu estomago sorriu agradecido.
_Se eu te falar meu nome promete não rir? – perguntei
desconfiada, ele sempre ria de tudo.
_Prometo. – Peter falou tentando abafar o sorriso, ignorei
aquilo e comi mais um pouco antes de falar.
_Sou eu Peter, Carolina Benson. – falei esperando sua
reação.
_Não brinca comigo. – ele murmurou.
_É sério seu imbecil, sou eu. – brinquei batendo em seu
ombro.
_Ai meu Deus! – ele gritou tomando a atenção dos
funcionários. _Você está uma delicia! – fiquei vermelha por seu comentário.
_Desculpe... Quero dizer... Está linda! – Peter gaguejou e eu sorri.
_Você também está bonito Peter, mas nada de dar em cima de
mim, eu ainda te odeio. – murmurei comendo mais de minha macarronada saboreando
sua cara de surpreso.
_Só me odeia porque ainda não me viu nu. – ele brincou com
malicia.
_Nem pretendo ver. – retruquei terminando meu jantar, Peter
gargalhou.
_Por que você não come á três dias? – ele perguntou sério.
_Eu não posso voltar a ser aquela garota que você brincava
malvadamente. – falei sorrindo amargamente.
_Desculpe... – Peter murmurou sincero.
_Tudo bem. – sussurrei com lágrimas não derramadas.
_Então... Eu já acho que vou para cama, amanhã começa a maratona de show do One
Direction e eu preciso estar descansada. – desci da bancada, mas Peter segurou
meu braço.
_Vamos sair um pouco, vamos ficar bêbado e eu posso te
contar o que me aconteceu, você pode fazer o mesmo Carolina... Por favor. – sua
voz era manhosa, revirei meus olhos, mas cedi.
_Tudo bem. – falei com dentes cerrados, eu precisava relaxar
um pouco e Peter parecia ter mudado além do físico, ele jamais me pediria
desculpas nove anos atrás.
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